drunkinparis

Gloom Rock Bastard, Homme, Portugal
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Rocket From The TombsWhat Love Is 27 mars 20h31m
ÀrsaidhCarved in Stone 26 mars 22h48m
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Mors SyphiliticaUngrateful Girl Coups de cœur 26 mars 0h06m
Mors SyphiliticaAs We Slept 26 mars 0h00m
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À propos de moi



Eu sou de facto o Diabo. Não se assuste, porém, porque eu sou realmente o Diabo, e por isso não faço mal. Certos imitadores, na terra e acima da terra, são perigosos, como todos os plagiários, porque não conhecem o segredo da minha maneira de ser. Shakespeare, que inspirei muitas vezes, fez-me justiça: disse que eu era um cavalheiro. Sou incapaz de uma palavra, de um gesto, que ofenda uma senhora. Quando assim não fosse da minha própria natureza, obrigava-me o Shakespeare a sê-lo. Mas, realmente, não era preciso. Dato do princípio do mundo, e desde então tenho sido sempre um ironista. Ora eu nunca pretendi dizer a verdade a ninguém - em parte porque de nada serve, e em parte porque não a conheço. Meu irmão mais velho, Deus todo-poderoso, creio que também a não sabe. Isso, porém, são questões de família. Talvez não saiba porque é que a trouxe aqui, nesta viagem sem termo real nem propósito útil. Não foi, como parecia que ia julgar, para a violar ou atrair. Não poderia. Essas coisas acontecem na terra, porque os homens são animais. Na minha posição social no universo são impossíveis - não bem porque a moral seja melhor, mas porque nós, os anjos, não temos sexo, e essa é, neste caso pelo menos, a principal garantia. Pode pois estar tranquila porque a não desrespeitarei. Bem sei que há desrespeitos acessórios e inúteis, como os dos romancistas da velhice; mas até esses me são negados, porque a minha falta de sexo data desde o princípio das coisas e nunca tive que pensar nisso. Dizem que muitas feiticeiras tiveram comércio comigo, mas é falso; ainda que o não seja, porque o com que tiveram comércio foi com a própria imaginação, que, em certo modo, sou eu. Esteja, pois, tranquila. Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus é pior - num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem. passam. Antes assim, não é verdade? Desde o princípio do mundo que me insultam e me caluniam. Os mesmos poetas - por natureza meus amigos - me não têm defendido bem. Um inglês chamado Milton fez-me perder, com parceiros meus, uma batalha indefinida que nunca se travou. Um alemão chamado Goethe deu-me um papel de alcoviteiro numa tragédia de aldeia. Mas eu não sou o que pensam. As Igrejas abominam-me. Os crentes tremem do meu nome. Mas tenho, quer queiram quer não, um papel no mundo. Nem sou o revoltado contra Deus, nem o espírito que nega. Sou o Deus da Imaginação, perdido porque não crio. É por mim que, quando criança, sonhaste aqueles sonhos que são brinquedos; é por mim que, quando mulher já, tiveste a abraçar-te de noite os príncipes e os dominadores que dormem no fundo desses sonhos. Sou o Espírito que cria sem criar, cuja voz é um fumo, e cuja alma é um erro. Deus criou-me para que eu o imitasse de noite. Ele é o Sol, eu sou a Lua. Minha luz paira sobre tudo quanto é fútil ou findo, fogo-fátuo, margens de rio, pântanos e sombras. Mas deixemos isso, que é puramente jornalístico. Lembremo-nos de que sou o Diabo. Sejamos, pois, diabólicos. Quantas vezes tem sonhado comigo?