É bom levar em consideração que o álbum
Samba Meu acabou sofrendo pelas expectativas criadas, afinal o
Segundo foi lançado em 2005 e o hiato incomodou os fãs. Vazou há pouco e é cedo pra falar desse disco, difícil ainda mais quando alguém tem um instrumento tão afinado quanto a voz da Maria Rita. Outra coisa que dificulta uma análise crua é a inevitável comparação com
Universo ao Meu Redor da
Marisa Monte e dos discos da
Roberta Sá, mas resolvi arriscar.
O começo do disco é uma agradável surpresa com Maria Rita cantando à capella na introdução, aliás a faixa que abre e dá nome ao disco é de longe uma das melhores interpretações da cantora, parece que a letra e melodia foram feitas exclusivamente para ela pedir permissão para entrar no universo do samba com a simplicidade que lembra os seus dois discos anteriores. Ao som de cordas e uma cuíca bem discreta e ao mesmo tempo marcante, é até agora a minha favorita.
Mas a desagradável surpresa vem logo em seguida com a segunda faixa
O Homem Falou um sambão no maior estilo enredo de escola de samba com direito a refrão empolgado que lembra
Beth Carvalho e
Alcione no ensaio da Mangueira. Mas isso não é Maria Rita e a empolgação da moça não me convenceu, interpretação forçada e que por pouco não acaba com a magia da faixa anterior.
A
Maltratar Não é Direito ainda pega o rastro do carnaval carioca deixado pela segunda, mas traz uma letra um pouco mais bem trabalhada e acaba sendo menos escola de samba que sua vizinha.
Num Corpo Só vem trazendo exatamente o que meus ouvidos esperavam desse disco, um samba com letra sacaninha, harmonioso e com os arranjos de piano característicos dos discos anteriores agora acompanhados de cordas.
Melhor eu pular
Cria, porque é uma homenagem de mãe pra filho e com essas coisas não se brinca, só digo que a letra é tão clichê que deixou a faixa bem chata. Os gritos do guri no começo também não ajudaram muito, mesmo dizendo o que diz.
Tá Perdoado é o primeiro single muito bem escolhido, ao estilo de
Num Corpo Só traz o verdadeiro samba da Maria Rita e abre alas para os momentos mais belos do disco depois da faixa título.
Já ouvi
Pra Declarar Minha Saudade 18 vezes e a emoção ainda é a mesma. 1min40 apenas de música com interpretação suave e sussurrada. Dos chorrinhos mais doces que já ouvi, sem falar da letra que é uma obra-prima.
O que é o Amor é aberta pela belíssima combinação de baixo, cuíca e a bela voz de Rita num sambinha danado de fofo.
Trajetória continua sustentando o leve e belo momento do disco e quase assusta por parecer sair do ritmo de samba ditado no álbum. Mas o piano acompanhante da Maria Rita na primeira metade da música logo ganha a companhia das cordas, surdo e tamborim, acabando tudo em samba.
Mente ao Meu Coração é o momento mais lírico do álbum e sem dúvida deve ser a favorita de muitos, aposta para ser o segundo single. Chorinho de primeira com interpretação maravilhosa.
Para quem conhece a grande interpretação da
Roberta Sá para
Novo Amor vai estranhar ouvir a versão da Maria Rita. As comparações são inevitáveis, a música ficou mais corrida e perdeu um pouco da doçura, porém ainda assim é uma bela faixa que abre espaço para a cantora voltar a acelerar um pouco o ritmo do álbum antes do fim.
Com
Maria do Socorro, Rita vai chegando ao morro brincando e nos presenteia com um belo samba meio bossa no início e letra bem humorada.
Nas duas últimas faixas a brincadeira continua,
Corpitcho traz uma Maria Rita já bem à vontade com cuícas e tamborins numa interpretação pra lá de descontraída no melhor estilo samba de churrasco no domingo, o que pode não agradar alguns.
Casa de Noca foi escolhida para fechar o álbum com chaves de cuícas, violas, caixas, surdos e piano. Samba delicioso pra cantar junto com Rita que fecha o disco assim como abriu: à capella.
Apesar do começo indigesto para os já acostumados com o estilo da cantora, o disco agradou e leva
6.8pts de 10pts. Deixa eu ir ali ouvir mais um pouco.